berimbeladaparafuzeta

Thursday, August 16, 2007








A um ausente


Tenho razão de sentir saudade,

tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste

e sem te despedires foste embora.


Detonaste o pacto.

Detonaste a vida geral,

a comum aquiescência de viver

e explorar os rumos da obscuridade

sem prazo sem consulta sem provocação

até ao limite das folhas caídas na hora de cair.



Antecipaste a hora.

O teu ponteiro enloqueceu,

enloquecendo as nossas horas.


Que poderias ter feito de mais grave

do que o acto sem continuação,

o acto em si,

o acto que não ousamos

nem sabemos ousar

porque depois dele não há nada?



Tenho razão para sentir saudades de ti,

de nossa convivência em falas camaradas,

simples apertar de mãos, nem isso,

voz modulando sílabas conhecidas e banais

que eram sempre certeza e segurança.



Sim, tenho saudades.

Sim, acuso-te porque fizeste

o não previsto nas leis da amizade

e da natureza

nem nos deixaste sequer o direito

de indagar porque o fizeste,

porque te foste.


( Carlos Drummond de Andrade )

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